7/13/2010

ECONOMIA SOCIAL E HUMANA

ECONOMIA SOCIAL E HUMANA
por Marcus Eduardo de Oliveira

A Economia (enquanto ciência e atividade produtiva) “somente será viável se for humana, para o homem e pelo homem”. Essa frase, interessante pela abrangência social, é atribuída ao papa João Paulo II (Karol Voitjila, 1920-2005).
Para iniciarmos essa conversa, um fato importante precisa, antecipadamente, ser ressaltado: uma economia com uma face mais humana e social, preocupada e centrada em análises das questões sociais, tem sido constantemente sufocada em nome de modelos microeconômicos distorcidos, típicos da economia convencional, que são dirigidos em favor dos ganhos cada vez maiores na escala especulativa, atendendo, assim, uma minoria de privilegiados.
Esses modelos econômicos, em geral, têm sido desenhados para atingir objetivos no curto prazo, quase sempre apontando para a necessidade de fazer a produção crescer, como se crescimento econômico significasse progresso humano.
Reitera-se, nesse pormenor, que buscar uma maior produção não assegura, por conseqüência, que todos participarão dela ou que, na essência, todos terão uma fatia disponível assegurada para abocanhar o “bolo” do crescimento econômico.
Isso, por si só, nos permite afirmar que crescimento não rima com desenvolvimento; e que, por definição mais ampla e significativa, convém dizer ainda que crescer não permite se desenvolver como mera contrapartida. Desenvolvimento econômico (melhoria da qualidade de vida) passa por uma abordagem bem mais ampla envolvendo, no bojo, uma substancial elevação no padrão de vida dos mais necessitados. Essa melhoria na vida das pessoas significa, antes, ter capacidade para ser e fazer o que se deseja. É o princípio que realça a afirmação que desenvolvimento conduz à liberdade, como apregoa com propriedade o Nobel Amartya Sen.
Dessa constatação parte uma provocação e um chamado a quem se interessa e luta por construir uma economia mais humana e menos tecnicista, mais social e menos mecânica, em seu sentido capitalista-espoliador.
A provocação é simplista: é necessário enveredar esforços no sentido de lançar-se um olhar renovador sobre a economia para, a partir disso, entender e propor alternativas a esse mundo-econômico repleto de injustiças e distorções, repleto de fome e de miséria, quer seja na África, na América do Sul ou em partes da Ásia.
O objetivo disso tudo, em termos de melhorar a penetração da ciência econômica em nossas vidas, é apenas um: criar modelos econômicos que permitam, pois, condicionar uma substancial melhora na vida de milhões de pessoas que hoje conformam os elevados índices de exclusão social.
Esse é, certamente, um dos grandes e mais instigantes desafios que o economista moderno desejoso de ajudar a edificar um mundo onde todos ganham precisará enfrentar. Para tanto, uma ruptura com a tradicional teoria econômica precisa acontecer, até mesmo porque a teoria tradicional insiste em propor um ensino pautado no individualismo, não no coletivismo.
Nesse sentido, essa ruptura passa por definir alguns novos objetivos: o primeiro deles é que o eixo central da economia tem que ser mudado. A base da economia tradicional não pode ser estritamente o mercado e, o objeto, a mercadoria como temos presenciado; mas, antes, o indivíduo e suas necessidades básicas e peculiares é que precisa ser colocado em primeiro plano. Lembremos que a Economia é feita pelos homens e para os homens, no intuito específico de qualificar a vida daqueles que vivem em precárias condições e que, por isso, muitas vezes são levados a morrer precocemente.
Que a Ciência Econômica “carregada” por todos aqueles que vislumbrem a necessidade de mudar os atuais modelos microeconômicos pautados na busca excessiva do lucro fácil para um que seja capaz de construir um mundo melhor seja posta, urgentemente, na direção da igualdade entre os homens.
As diversas crises que a economia e a sociedade, por não raras vezes, são (e tem sido) acometidas (vejamos o caso grego dos dias atuais) servem para acender a chama da renovação e da urgente mudança, até mesmo porque é inaceitável aceitar pacificamente a imposição de certas “ordens” ditadas pelos abonados mandantes da ordem econômico-política estabelecida.
Amartya Sen, a esse respeito, certa vez disse que: “É difícil entender como uma ordem mundial compassiva pode incluir tanta gente atormentada pela miséria extrema, pela fome persistente e por vidas miseráveis e sem esperança, e por que a cada ano milhões de crianças inocentes têm de morrer por falta de alimentos, assistência médica ou social”.
Talvez seja por isso que certas situações nos causam tanto incômodo. Vejamos, por exemplo, que os dentes afiados da financeirização internacional que movimentam, em termos especulativos, 2 trilhões de dólares por dia, nos dilaceram a carótida e nos tornam ínfimos e raquíticos perante a força do grande capital.
Disso resulta uma constatação que é simplesmente insano; patológico mesmo quando se percebe que essas verdades sabendo serem também verdadeiros os números que retratam as desigualdades no mundo atual em que, a cada ano, milhões de pessoas – pobres, miseráveis e indigentes – padecem pela dor física da fome. Vejamos que nos dias que correm nesse século XXI que vem carregando 2.000 anos nas costas a contar do nascimento de Cristo, todas as noites, 900 milhões de pessoas – crianças, jovens, idosos, homens e mulheres comuns -, vão dormir de barriga vazia; não pela opção estética do corpo magro e perfeito, mas por terem as bocas esfaimadas; porque os famigerados sistemas econômicos que “manipulam” mercados ao doce sabor do lucro e que pelos mercados são “manipulados” em favor dos rápidos retornos financeiros assim determinam tal ordem ignominiosa.
Isso nos leva a outra reflexão: Em se tratando de economia, não tenhamos dúvidas: as ações econômicas possuem diversas dimensões e impactos múltiplos que afetam substancialmente à qualidade de vida das pessoas; às vezes de maneira positiva, outras vezes negativamente. Em outras palavras, em economia somos todos responsáveis pelo que acontece.
O lamentável fato de presenciarmos gente morrendo de fome num tempo em que o avanço tecnológico é incomensurável, não pode ser moralmente justificável. Quase todos conhecem as maneiras (o modo de fazer) e sabem que os recursos para tirar essa massa incontável de pessoas da indigência estão disponíveis.
Nesse pormenor, bastaria, para tanto, menos de 0,5% de um PIB mundial que está batendo as cifras dos 65 trilhões de dólares anuais para acabar de uma vez por todas com essa sandice. Nesse sentido, para finalizar essa conversa, vale resgatar aqui as sábias palavras de santo Agostinho quando diz com clareza que “a esperança tem duas filhas lindas: a raiva e a coragem. Raiva do estado das coisas e coragem para mudá-las”.
Que tenhamos a coragem para mudar esse cenário de tristeza em que são acometidos aqueles que passam fome, em geral determinadas pelas ditas “ordens e modelos econômicos”.

(*) Economista brasileiro, é professor universitário com especialização em Política Internacional e mestrado em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo (USP).
Autor dos livros “Conversando sobre Economia”, “Pensando como um Economista” e “Provocações Econômicas” (no prelo).
Seus artigos em torno de questões econômicas têm sido amplamente publicados no Brasil e no exterior, com destaques especiais em Cabo Verde, Portugal e Angola, além de Rússia.
Contato: prof.marcuseduardo@bol.com.br

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